A força de uma obra bem-sucedida

A força de uma obra bem-sucedida
(Foto: Stig de Lavor)

 

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Se existe compositor ligado ao Theatro Municipal de São Paulo, é o campineiro Carlos Gomes (1836-1896). Sim, ele já tinha morrido quando o Municipal foi inaugurado, em 1911 com Hamlet, do francês Ambroise Thomas (1811-1896) – mas, na oportunidade, esta ópera foi precedida pela execução da abertura do Guarany. Sua efígie encima o palco da casa e, ao lado do teatro, há um Monumento a Carlos Gomes, de 1922, do italiano Luigi Brizzolara – um conjunto de esculturas com alegorias e personagens das óperas do músico, heroicamente postado acima delas. Em 1959 (em um esforço jamais repetido), as forças do Municipal realizaram sua única gravação comercial de uma ópera completa – justamente Il guarany, sob a batuta de Armando Bellardi, com o valoroso Manrico Patassini no papel de Pery, ao lado de duas lendas do canto lírico brasileiro: a soprano Niza de Castro Tank, uma Ceci de sobreagudos impressionantes, e o barítono Paulo Fortes como o vilão Gonzales.

Embora, curiosamente, a conhecida abertura da ópera (que se tornaria uma espécie de “segundo Hino Nacional”, devido à sua utilização no programa radiofônico A Voz do Brasil) não se tenha feito ouvir naquela ocasião (Gomes a compôs depois, para uma apresentação em 1871), é difícil ignorar o impacto causado em nossas terras pelo fato de um brasileiro emplacar uma ópera no Scala de Milão – e, ainda mais, com sucesso. Ao longo da década de 1870, Il guarany foi encenado em diversas cidades italianas, e ainda Londres, Varsóvia, Moscou, São Petersburgo, Buenos Aires, Montevidéu e Rio de Janeiro. Conforme assinalou Lorenzo Mammì no livro Folha Explica Carlos Gomes, “se o Segundo Reinado se caracteriza justamente pela tentativa de construir um perfil cultural nacional, cimentando traços locais com uma linguagem internacional mais ou menos atualizada, pode-se dizer que Il guarany é seu produto artístico mais bem-sucedido”.

Na véspera da Semana de Arte Moderna de 1922, porém, Oswald de Andrade proclamou, provocativamente, que “Carlos Gomes é horrível. Todos nós o sentimos desde pequeninos. Mas, como se trata de uma glória da família, engolimos a cantarolice toda do Guarany e do Schiavo, inexpressiva, postiça, nefanda”. E a ligação do Municipal com o compositor, efetivamente, foi se esvaindo ao longo do século 20. A última produção de Il guarany a ocorrer no teatro foi no já distante ano 2000.

(Foto: Stig de Lavor)

O encarregado de liderar uma Orquestra Sinfônica Municipal que não tocava a adaptação operística do romance de José de Alencar há quase um quarto de século foi o regente titular do grupo, Roberto Minczuk. Depois de um início fulgurante como menino-prodígio da trompa, Minczuk tornou-se uma das grandes promessas da regência brasileira ao atuar como braço direito de John Neschling na reformulação da Osesp, no final dos anos 1990. Contudo, havia certo ceticismo quando de sua chegada ao Teatro Municipal, em 2017. A casa vinha abalada por escândalos que colocaram seus gestores anteriores nas páginas policiais, e temia-se que ele não tivesse jogo de cintura para lidar com os corpos estáveis, após liderar uma conturbada, malograda e muito criticada tentativa de reestruturação da Orquestra Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, em 2011. Além disso, apontava-se que sua experiência se resumia ao campo da música sinfônica, e era quase inexistente em ópera.

Pois bem. Em um cargo tão instável e sujeito a pressões como o dos treinadores dos clubes de futebol da capital paulista, Minczuk vem mantendo uma longevidade rara e invejável. Investiu em uma programação ambiciosa que ajudou a resgatar a autoestima da orquestra – e despertar o interesse do público. E se sua interpretação das óperas dividia opiniões no início, as leituras mais recentes parecem demonstrar um inegável amadurecimento. Minczuk dirigiu um O amor das três laranjas bastante saboroso, cheio de verve e estilo, em 2022. E agora, em uma ópera de linguagem completamente diferente da de Prokófiev, como Il guarany, teve uma Orquestra Sinfônica Municipal em excelente forma, tocando com brio, acompanhando atentamente os cantores e construindo convincentes arcos dramáticos – os concertatos soaram especialmente impressionantes.

Os papéis de protagonista de Il guarany são não apenas longos, como também exigentes para as vozes. E aí a escolha do elenco revelou-se particularmente feliz e acertada. Surgido como uma das mais belas vozes de tenor lírico já reveladas pelo Brasil, o paraense de carreira internacional Atalla Ayan, ao cantar Pery, realizou uma transição para um registro vocal mais pesado – já anunciado, de certa forma, pelo timbre escuro que o acompanha desde cedo. Além de encantar pela qualidade intrínseca da voz, Atalla manejou seu instrumento com muita sabedoria, dosando as forças na medida certa, com um desempenho que foi crescendo ao longo da estreia – na sexta-feira, dia 12. A seu lado, a soprano bielorrussa Nadine Koutcher demonstrou não apenas desenvoltura nas coloraturas da escrita incrivelmente ornamentada de Ceci, como ainda raro refinamento no fraseado. E o barítono carioca Rodrigo Esteves foi um Gonzales de solidez e consistência.

(Foto: Stig de Lavor)

E, uma vez garantida a qualidade do fazer musical, a força da ópera está preservada em toda sua integridade original. Análises superficiais de qualquer ópera exclusivamente a partir do libreto parecem ignorar o detalhe elementar de que, nesse tipo de espetáculo, a voz do narrador não está expressa em palavras, sejam elas cantadas ou nas rubricas cênicas – ela se manifesta através da música. O compositor controla não apenas o tempo musical, como também os afetos. E quando a música tem real qualidade supera, assim, não só a qualidade muitas vezes duvidosa dos versos cantados, como ainda uma encenação hostil a ela.

Apenas um exemplo: na montagem do Municipal, naquela que deveria ser a grande ária de Ceci, os encenadores resolveram projetar um antigo filme sobre uma expedição entre indígenas, com um texto agressivo, tentando desviar a atenção do público da cantora solista e ainda contradizendo o caráter da cena, que proclamava amor. Contudo, a maestria de Koutcher ao interpretar a música foi tão grande que o que prevaleceu foi a intenção do compositor. Cem anos depois da Semana de 1922, talvez esteja na hora de aceitarmos que Carlos Gomes não é horrível.

Leia aqui a análise da ópera por Welington Andrade

O GUARANI
Theatro Municipal de São Paulo
Praça Ramos de azevedo, s/n – Centro – São Paulo, capital
Sexta, às 20h; sábado e domingo, às 17h
Duração: 180 minutos com intervalo
Classificação: 12 anos
Até 21 de maio

Irineu Franco Perpetuo é jornalista e tradutor, colaborador da Revista Concerto.


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