Um ensaio sobre o falo a partir do filme “A viagem de Pedro”

Um ensaio sobre o falo a partir do filme “A viagem de Pedro”
(Foto: Divulgação)

 

Sempre me interessou na trajetória de Laís Bodanzky o foco nas questões afetivas e subjetivas dos personagens, inseridos e engendrados num contexto social, histórico e político bem definido. Numa ponta, no ano 2000, Bicho de sete cabeças, estreia brilhante que além do grande valor artístico, incidiu no campo da saúde mental em sua ainda hoje urgente luta antimanicomial. Na outra, Ex-pajé, de 2018, filme produzido por Laís que faz a denúncia do ataque e da resistência em curso nos territórios indígenas aos valores simbólicos tradicionais, especialmente os mitos e ritos religiosos ancestrais que sustentam as relações dos povos e dos sujeitos com a vida, a doença e a morte.

Em A viagem de Pedro, lançado em setembro nos cinemas, Laís fecha mais seu foco ao pinçar, em cena memorável, o pênis flácido do imperador Pedro I, que pergunta angustiado que doença o acomete ao autor do ato, um médico de fragata. Constrangido, o doutor que receitava chás ineficazes e recomendava calma, responde que aquela doença não tem um nome específico.

A doença sem nome, sem palavra que a defina, é a impotência do imperador, que a caminho da disputa fratricida para recuperar o reino português se pergunta como poderá vencer uma guerra de pau mole, revelando a cola imaginária do poder ao próprio pênis, imbrochável.

A fala desesperada do imperador, ainda que fictícia, ressoa no Brasil de hoje. Resolvi pinçar, por minha vez, um fragmento da teoria psicanalítica sobre o falo, conceito difícil, banalizado e controverso. Acho que isso pode nos ajudar a pensar o caso do imperador para entender como o tratamento cinematográfico que Laís propõe se dá de forma a deslocar imagens e ideias preconceituosas e cristalizadas. Procedimento a meu ver correto tanto do ponto de vista da política quanto da clínica psicanalítica, ao operar no sentido de desmanchar a ilusão fálica imaginária, remanescente de um equívoco infantil presente na subjetividade de homens e mulheres adultos.

Vou ser esquemática, tentar ser clara e concisa, o tema é cabeludo.

Sigmund Freud, judeu burguês do século 19, subverteu o conhecimento da época e abalou nosso sonho de inocência ao propor a noção de sexualidade infantil, descrevendo e nomeando suas etapas.

No primeiro tempo, a que chamou fase oral, para o bebê a boca é o lugar de prazer e de relação com os objetos que o cercam. Desde a primeira mamada, ao mesmo tempo em que se alimenta descobre o prazer de sugar o seio ou a mamadeira que o substitui. Um prazer propriamente sexual, se entendermos o sexual como aquilo que vai além da satisfação da necessidade de sobrevivência física e dela se separa: chupar, morder, lamber, todos conhecemos isso. Pode ser dedo, chupeta, um paninho, qualquer coisa, como constatamos na vida cotidiana.

Depois, sem que a primeira fase seja totalmente superada, entre os 3 e os 5 anos de idade, é a vez do ânus e da uretra, a chamada fase anal, a fase do controle, com a experiência do prazer de soltar e/ou reter as fezes e a urina. Até aí meninas e meninos são iguais: as mesmas bocas, os mesmos ânus, fezes e urina. Só por volta dos 5 anos a criança entra na fase que Freud denominou fálica, baseado na figura do pênis/falo como símbolo do poder gerador da natureza, presente na cultura ocidental desde os festivais em homenagem a Dionísio, na antiga Grécia.

É então que se dá a descoberta dos genitais pela criança, as diferenças sexuais anatômicas são percebidas e seus prazeres experimentados.

Outra vez, a passagem para uma nova fase não implica superação completa da fase anterior.

Segundo Freud, essa primeira percepção se reduz à presença ou ausência do pênis, um órgão fascinante aos olhos da criança por ser grande, plástico, vibrátil e visível. Uma imagem indelével, para sempre impressa em nossa memória infantil inconsciente, bem como a ideia que a acompanha: o corpo do menino é dotado de algo a mais que ao corpo da menina falta. De tal forma que a menina é menos por ter menos e o menino é mais por ter mais. De tal maneira que a vagina, em sua condição de órgão interno, em grande parte invisível, não é percebida como outra forma de presença positiva, sendo vista apenas como uma fenda, um corte, um vazio.

Essa lógica binária, no entanto, não é afirmação freudiana sobre a verdade da diferença anatômica entre os sexos e suas consequências psíquicas.

Essa é a descrição da percepção de crianças de 5 anos, incapazes de entender que o valor da coisa não está no tamanho, na quantidade ou no brilho de sua aparência externa. Impressão cujas ressonâncias prevalecem no imaginário pessoal e social, consoante às construções sociais de gênero vigentes à época e até os dias de hoje. Portanto, ao longo de todo século 20 e começo do 21, tempos em que a cultura é definitivamente atravessada pela psicanálise.

Menos conhecida é a afirmação teórica de Freud de que na origem somos todos bissexuais, sendo a identidade sexual uma construção psíquica influenciada, mas não determinada, pela anatomia dos corpos.

Ideia que descola a qualidade do feminino do corpo da mulher e a qualidade do masculino do corpo do homem, considerando-as forças distintas presentes em proporções variáveis nas mulheres e nos homens. Para ele, feminina é a posição passiva, o lugar de objeto e da castração simbólica como noção da incompletude e da falta. Masculina é a posição ativa, o lugar de sujeito, de ser não castrado.

A encrenca é que é difícil nos darmos conta e lidar com isso, mesmo quando na vida adulta já teríamos a capacidade intelectual necessária para desconstruir a visão infantil, equivocada, das diferenças sexuais anatômicas, que deixam marcas profundas em nosso psiquismo, em nossas representações do homem e da mulher, em nossos afetos e no modo de nos posicionarmos em relação a nós mesmos e aos outros.

Homens e mulheres contemporâneos, atores e testemunhas das imensas transformações em curso na sexualidade e nas questões de gênero dos últimos mais de 100 anos, imersos no regime de inconsciente colonial racializante capitalístico, autoritário e machista, continuamos a acreditar ser da ordem da desigualdade de valor aquilo que é da ordem da diferença, dessa mínima diferença entre os corpos que produz uma enormidade de efeitos – meninos valem mais, meninas valem menos; meninos são fortes, meninas são frágeis; meninas choram, meninos não choram; meninos podem mais, meninas podem menos; homens sabem mais, mulheres sabem menos; para os homens as coisas são fáceis, para as mulheres difíceis… e por aí vai a confusão e o mal entendido.

Separo aqui, isso precisa ficar claro, a dimensão da subjetividade, das representações e dos afetos, da dimensão política e social na qual se estabelece, de fato, uma desigualdade de valor, de acesso e de direitos entre os homens e as mulheres.

Para lidar com isso, assim como precisamos reconhecer que o racismo estrutural marca a mentalidade de brancos e negros, precisamos reconhecer que o machismo estrutural marca a mentalidade de homens e de mulheres.

O filme de Laís nos lança nesse universo complexo ao pinçar o pênis flácido do imperador na tela, expondo ao mesmo tempo a impotência do médico, outro emblema da onipotência imaginária na cultura, ao não saber dizer o nome da doença que examina.

Aí começa a viagem interior de Pedro. A viagem criada por Laís nessa lacuna da história, baseando-se em fragmentos de fatos conhecidos. Um filme feminino não por ser feito por uma mulher, mas por reconhecer potência no vazio.

A viagem de Pedro é a trajetória de um homem em busca de nomear o próprio sofrimento, indagando-se sobre si mesmo e sobre seus fantasmas, para compreender o que lhe atormenta produzindo sintomas e dor sem palavras. Caminho que passa pela desconstrução da ilusão do pênis como falo, como único sustentáculo da virilidade e da capacidade de enfrentar e vencer suas batalhas.

O mais transformador nesse movimento é Pedro buscar o saber que lhe falta nos sujeitos destituídos dessa condição na lógica colonial eurocêntrica – um negro que foi liberto para melhor servir aos brancos e uma negra escravizada que viaja em busca de liberdade.

São eles o hierático e misterioso cozinheiro malê e a bela mulher negra serviçal, dona do seu prazer e do seu desejo.

O primeiro intervém com o saber e o manejo de práticas espirituais ancestrais, que dão a Pedro o acesso à própria história de violência, desamor e abandono, permitindo-lhe re/conhecer culpas e lutos não vividos.

A segunda, numa cena que me pareceu magistralmente construída, rápida e precisa, é a mulher negra que numa relação sexual oral, o faz entender que não só o pênis possui a potência viril de fazê-lo obter e dar prazer no sexo. Portanto, o pênis não é o falo, no sentido simbólico de falo como tudo aquilo, ou praticamente qualquer coisa, que possa preencher nossas faltas existenciais. Algo que ninguém é ou possui, algo que circula, de que todas, todos e todes podemos usufruir em algum momento.

Penso que é para isso que o filme chama nossa atenção: para o fato de sermos todos sujeitos humanos igualmente incompletos e desamparados. Todos sofremos e precisamos de ajuda.

O risco paradoxal do feminismo é reificar a imaginária superioridade dos homens. Não distinguir seus privilégios sociais reais da condição humana que compartilhamos e na qual somos semelhantes.

Para o feminismo avançar como desejamos, é preciso reconhecer, escutar e falar a respeito do sofrimento dos homens, que ao se aterem à ilusão psíquica infantil e à construção social de gênero que a ela se enlaça, acreditam ser necessário ser ou parecer imbrocháveis, sempre eretos, sabidos, fortes e valentes. Se os homens não podem chorar, reconhecer e nomear seus sentimentos e suas vulnerabilidades, só lhes resta a violência como expressão.


Heidi Tabacof é psicanalista, cineasta e por mais de 20 anos foi professora do departamento de psicanálise no Instituto Sedes Sapietiae. Criou a série documental Psicanalistas que falam e, junto com Sabrina Arini, o projeto Fala, Homem!, roda de conversa semanal em que homens são convocados a falar de suas complexidades.


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