Tapa na cara!

Tapa na cara!

 

Eu já tinha desistido de ver o Oscar quando o tapa na cara dado pelo ator Will Smith no comediante Chris Rock virou assunto mundial, mais importante que a Guerra da Ucrânia, mais importante que escrachar Bolsonaro no Lollapalooza, enfim, um acontecimento!

Ninguém defende violência na macro nem na micropolítica, mas tem horas que nossos princípios abstratos não são suficientes pra entender uma cena que provoca uma comoção viral e todo tipo de juízos, celebrações e condenações. O tribunal global das redes é um laboratório das mudanças subjetivas e comportamentais que estamos vivendo.

Li muitas coisas instigantes, escrachadas e debochadas sobre esse tapa. A fábrica de memes globais é impressionante e a inteligência coletiva está viva. Mas aprendi também sobre as dores das mulheres negras e dos homens negros, sobre piadas recreativas que humilham e sobre o que consideramos violência e os limites do tolerável.

“Will Smith legalizou o porte de tapas”, li no twitter debochado que relativizava o tapa como arma. Mas não precisa relativizar a violência do gesto para entender que em todos esses episódios de fúria tem uma gota d’água que transborda e explode e traz consigo muitas dores acumuladas, pessoais e coletivas. Não se trata de justificar, mas de entender.

A noite de fúria de Will Smith foi um átimo, poucos segundos, mas não foi em qualquer lugar, foi na noite do Oscar, um dos eventos de maior visibilidade do planeta, associado ao glamour, ao sucesso, à indústria, à festa, a um mundo totalmente codificado de etiquetas, mas que também beira a cafonice e/ou o tédio.

Nesse mundo todo regrado e festivo, o tapa de Will Smith revela as violências simbólicas. Eis o escândalo! No caso, quando a piada do comediante e animador da festa, Chris Rock, é sobre a dor do outro, sobre o sofrimento de uma mulher negra com uma doença, a alopecia, que fez com que a atriz Jada Pinkett-Smith perdesse o cabelo e raspasse completamente a cabeça. Uma “piada boba” e de mau gosto, que poderia ser engolida em seco, vale esse tapa cinematográfico e escandaloso?

O incômodo visível de Jada com a piada em público detonou o gesto impulsivo e violento de seu marido Will Smith, uma espécie de reparação a quente, uma violência não mais verbal, mas gestual: o tapa na cara. Em termos abstratos ninguém tem razão, nem o comediante profissional do escracho, Chris Rock, nem Wil Smith. Mas o mundo não se explica apenas por princípios abstratos e se encarna em ações e gestos nem sempre racionais.

Essa tradição de humor ofensivo, feito de insultos pesados, onde uma pessoa e/ou celebridade é alvo de piada, tem nome nos EUA: roast (assado), de assar, fritar ou escrachar alguém em programas de TV ou mesmo eventos políticos. No Brasil, os humoristas como Danilo Gentili, Rafinha Bastos, Helio de la Peña, que defendem o humor a qualquer preço, se apressaram em defender o comediante Chris Rock. “É só uma piada!” virou uma espécie de senha para exercer nosso racismo, misoginia, machismo etc.

O humor não teria limites? Parece que sim, e o tapa de Will Smith coloca a falta de limites em questão. O que é intolerável para um indivíduo, um grupo ou uma sociedade? Essa é a questão que tem que ser calibrada permanentemente. Os limites e a régua mudam historicamente.

A resposta mais fácil dada nas redes é “todos estão errados” ou “todos tem suas razões”. Sim, mas a questão que importa é que um tapa dado por um negro em um momento em que uma piada se torna “intolerável” muda o debate do que é tolerável diante do sofrimento dos outros, muda a cena modorrenta do Oscar onde se tolera tudo em nome da “etiqueta”, da festa, do glamour. Diante de sorrisos amarelos e rostos estupefatos, se instaura um mal estar decisivo e pedagógico.

Não estou defendendo sair dando tapa na cara de ninguém como pedagogia, mas tendo o tapa já sido dado, que sirva para pensarmos e sairmos do debate polarizado do “foi certo ou errado?”. As polarizações são sempre redutoras.

Um tapa é um gesto fortíssimo e uma cena. Abusando da inteligência viva de Nelson Rodrigues sobre o aspecto cênico e teatral do tapa na cara, vejamos mais um dos seus significados:

Ora, um tapa não é apenas um tapa: — é, na verdade, o mais transcendente, o mais importante de todos os atos humanos. Mais importante que o suicídio, que o homicídio, que tudo o mais. A partir do momento em que alguém dá ou apanha na cara, inclui, implica e arrasta os outros à mesma humilhação. Todos nós ficamos atrelados ao tapa.

Cada um com seus afetos, história e vivências faz uma leitura diversa desse tapa: quem defender, a quem se aliar, que argumentos pode-se trazer para o debate. Eis o poder dessa cena!

Quem já deu e já levou um tapa na cara sabe que são situações extremas e emocionais. Um tapa na cara é um gesto de fúria, desespero, impotência, mas também um gesto político. O que conta é toda a sequência de fatos que vem junto.

Will Smith perdeu a cabeça, deu um tapa que coloca limite em piadas infames, defendeu sua preta, ficou abalado, chorou e pediu desculpas em cena e depois formalmente pela mídia e na mesma noite foi consagrado e ganhou o Oscar de Melhor Ator pelo filme King Richard. A imagem de Will Smith aos prantos ao ganhar o Oscar logo depois de um gesto condenável e indefensável é comovente. O homem violento se transforma em um menino que chora suas dores e de seu povo, de homens e mulheres negras historicamente assujeitados e se desculpa diante dos colegas e da Academia de Cinema de Hollywood: um lugar que resiste em enegrecer, que enegrece aos surtos e pelo talento de Wills e Jadas e tantos outros artistas negros.

Will Smith fez no dia seguinte do escândalo o seu discurso racional: “A violência em todas as suas formas é venenosa e destrutiva. O meu comportamento no Oscar de ontem à noite foi inaceitável e imperdoável”, disse.

Como na melhor tradição hollywoodiana, Smith caiu para o alto, depois te ter ido no fundo do poço em uma cena difícil de esquecer e que virou meme planetário. A vida é feita das suas contradições. Will Smith deu um tapa sentido e que foi recebido por Chris Rock de forma impávida! Impressionante a postura de Rock: levou o tapa e continuou sorrindo e fazendo piada. O show tem que continuar!

Esperemos que o tapa na cara, tão impulsivo e primário, se desloque do comediante Chris Rock e seja um tapa na cara pedagógico, no humor a qualquer custo, no piadismo que humilha, na forma como se coloca o entretenimento acima da dor dos outros.

Will Smith pode até ser suspenso e punido pela Academia de Cinema de Hollywood por causa do tapa que deu em Chris Rock durante cerimônia do Oscar de 2022. Mas o tapa vai entrar para a história dos gestos de revolta, junto com todos os seus significados.

 

Ivana Bentes é pesquisadora do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ.


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