Horripilação

Horripilação

 

Lugar de Fala é o espaço dos leitores no site da Cult. Todo mês, artigos enviados por eles são publicados de acordo com um tema. O de dezembro de 2021 é “angústia”


À noite ela me vem, disfarçada de melancolia.
Constantemente eu a driblo muito bem, nos bares, no sexo, na boemia.
A madrugada costuma ser eterna, portanto eu acelero meu relógio que só desperta quando é dia, numa ressaca descomunal.
Por vezes eu me lembro como voltei, me safo, me dou bem,
Há outras que eu me perco no caminho, perco as roupas, perco as chaves e sou devorada pela rua.
Ainda assim, me satisfaço pelo alívio de me livrar dela.

Mas a persistência é uma constante na maldita.
Ela teima em reaparecer e eu nunca entendo muito bem o porquê.
Na surdina, sorrateira, quando dou conta já me pegou de jeito.
E aí não existe mais remédio algum,
nem whisky, gin ou run,
que a faça dar meia volta e tornar para o quinto dos infernos,
de onde com certeza ela saiu.

Enfim nos encontramos,
Ela me mastiga,
Lentamente,
Len-ta-men-te.
Eu sinto em meu corpo o peso de todos os anseios, de todos os desejos reprimidos, comprimidos,
Todos eles,
e eles são muitos.
Pesados,
abstratos.

Murcho,
Sob o domínio da inércia inquietante, que grita em silêncio
um vazio ambíguo,
que rasga e corrói sem deixar carimbo.
Analiso meus fracassos, estavam todos bem dobrados numa bela caixa do passado,
agora estão emaranhados em cima da cama onde eu mal consigo me deitar.

Me viro,
Reviro,
As vozes mais odiáveis me gritam da janela,
Eu jurei tê-las arrancado as cordas vocais, era certo que não as ouviria nunca mais.
Enquanto se aproximam aqueles timbres que me arrepiam a espinha,
O quarto vai encolhendo,
O peito inchando,
Falta o ar.

O medo tenta entrar por debaixo da porta mas mal há espaço pra ele
Só há ela,
em cada quadrado existente.
Apenas uma angústia estridente

Com um bucado de esforço eu alcanço meu maço.
Alguns tragos depois ela me dá um pouco de espaço.
Eu cogito me jogar em algum canto da cidade antes que ela venha com mais fúria,
mas ainda não consigo me fazer muito presente,
me sinto um pouco fraca, um pouco ausente.

Consigo enxergar a bela caixa aberta no canto do quarto,
meus fracassos parecem voltar a caber ali.
Já não escuto mais os gritos,
são agora pequenos sussurros,
Talvez se eu não der atenção eles se calem,
Talvez com música eu os deixe ainda mais distantes.

Respiro fundo.
Ela foi embora.
Não comemoro, sei bem do caminho a espreita que ela toma pra me vigiar.
Com tudo que me cerca, a qualquer momento ela pode me agarrar.
Em uma bufada, indago num ponto que quase chego a acreditar:
Vá angústia! E não ouse retornar.

Isabela Martinez, ou Bela, 23, é estudante
de sociologia e leitora da Cult.

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