Ao Chile, com carinho

Ao Chile, com carinho
Salvador Allende com Fidel Castro, em Santiago, em 1971 (Foto: Biblioteca Nacional de Chile)

 

Era janeiro de 1972 e no Chile vivia-se o governo de um médico marxista que prometia fazer a revolução com sabor de empanadas e vinho tinto, primeiro líder socialista eleito em eleições livres presidente de um país no mundo.

Salvador Allende dispensava o uso das armas para buscar justiça ao povo andino.

Seu fim faz parte de um dos capítulos mais terríveis da história do século 20, deposto exatamente pelas forças armadas chilenas comandadas pelo crápula Augusto Pinochet, depois de bombardear por terra e ar o Palacio de La Moneda.

Allende despertava imensa curiosidade entre os jovens progressistas da América Latina, orador de mão cheia, corajoso e afável – ousado a ponto de nacionalizar o cobre, principal produto de exportação do país, como um de seus primeiros atos de governo.

Era preciso ver aquilo de perto.

Guido Mantega e eu, colegas na Faculdade de Ciências Sociais da USP, com as respectivas mulheres, Cristina e Susana, tratamos de empreender deliciosa aventura com a desculpa oficial de que iríamos, como de fato fomos, de carro, até Osorno, a região dos lagos quentes ao sul do Chile, em travessia inesquecível de quase 4 mil quilômetros.

Lembremos que, então, Emílio Garrastazu Médici era o ditador de plantão, no Brasil, e Alejandro Lanusse o da Argentina.

Era minha primeira ida à fronteira sem ser para levar alguém que precisasse sair do país, embora a mais usada fosse a com o Uruguai.

Na verdade, meu objetivo era ir visitar minha afilhada, e órfã de pai, Marta Nehring, de oito anos, e a mãe dela, minha prima-irmã, a socióloga Maria Lygia Quartim de Moraes, viúva de Norberto Nehring, morto sob tortura no DOI-Codi em São Paulo, em 1970.

E lá fomos nós.

Jamais esquecerei da imagem pintada em cores fortes num rochedo na saída do antigo túnel da rodovia Pan-Americana, que liga Mendoza a Los Andes, na cordilheira: um condor tinha numa garra a bandeira da Argentina e na outra a do Chile, com os dizeres “Hagamos realidad el sueño de Bolívar: por una sola Latina América”.

Estar em território andino era respirar uma liberdade que até então desconhecíamos, os dois casais recém-adentrados nos 20 anos, cujas adolescências transcorreram já sob o golpe de 64.

A semana vivida em Santiago serviu de aula de cidadania e democracia.

O contraste com os nostálgicos brasileiros lá exilados tornava mais odiosa ainda qualquer forma de ditadura.

Havia manifestações de todos os lados e íamos àquelas que mais nos apeteciam: “Quien salta es pueblo, quien no salta es momio”, diziam os adeptos da UP, a Unidad Popular de Allende, em numerosos cordões pelas ruas da capital.

Inimaginável que tamanha mobilização, com tanto fervor, autenticidade e alegria pudesse terminar mal.

Testemunhávamos como jamais havíamos visto o povo tomar o destino em suas mãos no rumo de seus melhores sonhos.

Devidamente saciados e tomados por indisfarçável sentimento de inveja, seguimos viagem em direção ao belíssimo vulcão de Osorno, irmão quase gêmeo do Vesúvio.

Ao nos despedirmos de Maria Lygia, a Ia para nós, os íntimos, planejávamos voltar via Bariloche, a cerca de 200 quilômetros de Osorno.

Ao chegarmos à fronteira argentina, o oficial chileno não permitiu que passássemos.

“Falta uma autorização chilena para vocês entrarem em território argentino”, disse, inflexível.

Tentamos argumentar: “Mas entramos da Argentina sem nenhum problema”, ponderamos.

“Problema dos argentinos, que vivem sob ditadura. Eu sou filiado à UP e não quero ter na consciência a culpa de permitir que vocês venham a ter problemas lá. Sem autorização do governo chileno, daqui não passarão”, sentenciou o militar.

Com um misto de frustração, por não poder conhecer Bariloche, e gratidão, pelo zelo do camarada, tomamos o caminho de volta por onde viemos, certos de que quem nos deixou entrar, deixaria sair.

De fato, assim foi.

Corta para setembro de 1973.

No dia 7, dia da Independência do Brasil, meu irmão Beto sofreu um acidente automobilístico e ficou mais de dez dias entre a vida e a morte, com hemorragia nos pulmões, no hospital Oswaldo Cruz.

Quatro dias depois, em meio à agonia da incerteza, deu-se o golpe no Chile.

No pátio do hospital, ouvíamos o noticiário que informava a movimentação de tropas legalistas, comandadas pelo general Carlos Prats, que estariam marchando do sul em direção a Santiago.

Um sentimento de ambiguidade entre torcer pela vida do irmão e pelo sucesso do general invadia minha impotência.

O mano, felizmente, safou-se. Prats fracassou e exilou-se na Argentina, já democratizada e sob governo do peronista Héctor Cámpora.

Em 1974, Prats e a mulher morreram vítimas de ação terrorista da DINA, a Divisão de Inteligência Nacional pinochetista, que plantou um carro-bomba em frente ao edifício em que moravam.

Para completar sensações tão antagônicas, no dia 14 de setembro de 1973, três dias depois do golpe, nascia meu primeiro filho.

Cogitei chamá-lo de Salvador, mas seria responsabilidade demasiada para o bebê.

Carlos denotaria enorme falta de criatividade porque nome de meu pai, Carlos Alberto, de meus irmãos, de meus primos, todos com nomes compostos, eu inclusive, José Carlos. Ficou André.

O que você leu até aqui é apenas relato pessoalíssimo de quem sonhou o sonho da esquerda latino-americana e nunca acordará dele, ao contrário.

Passados 50 anos de um dos mais estúpidos, sanguinários, estarrecedores golpes dados pela extrema direita mundial, com a ajuda do começo ao fim dos Estados Unidos, é preciso pensar como, por mais que do México para baixo tenha sido possível reequilibrar as forças progressistas para fazer frente à barbárie, a hipótese do retrocesso ainda nos ameaça.

Allende imaginou que prescindiria das armas, por mais que fosse fustigado pela esquerda radical chilena que apelava para ele armar seus apoiadores, quase 37% do eleitorado.

Desnecessário dizer que o banho de sangue seria ainda maior dada a correlação de forças entre civis armados e militares.

O mártir chileno, aliás, ensinou que as ideologias se posicionam de tal maneira que seus extremos se encontravam às suas costas, referência ao movimento dos caminhoneiros financiados pela direita para parar o Chile e o MIR, o Movimiento de Izquierda Revolucionaria.

Estamos longe de fazer do sonho de Bolívar realidade assim como longe estamos de viver em países mais decentes por estes lados do mundo.

Aprender com os erros, não repeti-los, se impõe.

Reverenciar personagens da História como Salvador Allende, Nelson Mandela e Alexander Dubček, o líder da Primavera de Praga, esmagada pelo Exército Vermelho em 1968, será sempre pregar a democracia como deve ser pregada, meio de justiça social, da verdadeira igualdade de direitos, contra a violência da usura, do lucro desmedido, da insensibilidade dos poderosos.

Está aí Pep Mujica como exemplo vivo.

E está aí Lula, com trajetória ainda a ser cumprida, mas no caminho certo dentro de suas possibilidades.

Allende morreu na resistência, aos 65 anos, dentro do bombardeado palácio presidencial.

Meio século depois, Salvador Allende está presente.

Viva Chile!

Juca Kfouri é jornalista, autor de Confesso que perdi (Companhia das Letras, 2017). É formado em Ciências Sociais pela USP.


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