A voz que encontrou os pés

A voz que encontrou os pés
Elza Soares desfila pela Mocidade Independente de Padre Miguel no Carnaval de 2020 (Foto: Widger Frota)
  Cantar não é perfumaria. Não é necessariamente a nota bonita ou o portamento pelo qual se pretende impressionar. Não é a respiração que não se ouve, o legatto estimado à “perfeição”, um jogo vaidoso de cena, a grife da vez costurando o corpo, a pirotecnia das luzes. “Eu vim do planeta fome!” Assim a garota Elza Soares anunciou ao afamado compositor Ary Barroso em seu programa de calouros, na rádio Tupi, em 1953. A mesma que trajava um vestido da mãe sustentado por alfinetes. Alfinetes que se transformaram em amuletos da sorte que ela carregou por toda a vida após aquele encontro em que foi alçada a nova estrela da música brasileira. “Me deixem cantar! Eu quero cantar até morrer!” CANTAR deve ser perigoso, Elza. Tem peito demais. E sempre falta. Falta espaço. Fala alto, cala fundo. Rrrrrrrrrrrói sem trégua. Mas acho que tem o outro lado da moeda: deve devastar os pulmões de calor e de luas. Ventilar e permitir à alma “horinhas de descuido”, às margens de Guimarães Rosa. Sacudir as sementes plantadas nos cabelos, na cabeça, as mesmas que as mulheres negras do Suriname espalharam pela floresta equatorial, num conto do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. CANTAR iluminando todas as palavras e acolhendo as que você escolheu verbalizar, apaixonada e urgentemente. Por pura beleza, desespero, raiva, amor, saudade, abandono, alegria, amargura. Ou tudo junto. E mais. Levar a canção no maior balanço, dando o tom, a começar pelo que principia o mundo: o ritmo, a ginga, a esquiva, o tropeço que ergue e m

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