O fascismo nasce das contradições do progresso?

O fascismo nasce das contradições do progresso?

 

 

Há certa narrativa que vê o fascismo como uma espécie de regressão social, isso no sentido de um arcaísmo que emerge como reação às transformações provocadas pelos processos de modernização social. Nessa visão, o fascismo apareceria como uma espécie de revivescência de vínculos arcaicos à terra diante de um mundo cosmopolita, como a insistência em noções orgânicas de comunidade e identidade contra a marcha necessariamente plural e multiforme de nossas sociedades liberais. Ele seria o fruto do ressentimento diante dos fracassos sociais produzidos de inserção deficiente nas redes de produção, a violência bruta contra privilégios há muito naturalizados, assim como o obscurantismo que não se deixa vencer pelas luzes e pela ciência. Em todos esses casos, o fascismo aparece como uma espécie de marcha a ré da história. Como se estivéssemos diante de uma recusa da modernização.

 

Mas poderíamos nos perguntar o quanto tal compreensão é incorreta e ideológica. Fazer uma pergunta dessa natureza pode ser algo útil no Brasil atual. Pois os últimos anos nos mostraram como o “fascismo brasileiro” não era um slogan de guerra política a ser utilizado contra certos grupos com pendores autoritários. Na verdade, ele era um termo analítico que expressava claramente um núcleo autoritário e popular da sociedade brasileira. A presença, entre nós, de partidos fascistas populares como a Aliança Integralista Nacional, que chegou a ter 1.200.00 membros nos anos de 1930, deveria nos fazer mais cuidadosos a respeito do destino e influência do fascismo entre nós. Que o atual ocupante da presidência da república assine cartas à nação com o tema integralista “deus, pátria, família, eis algo que deveria igualmente nos chamar a atenção. O neoliberalismo autoritário de Bolsonaro só pode se realizar por mobilizar o horizonte e imaginário do fascismo nacional.

 

Mas há uma forma de abordar o problema que nos permitiria um pouco mais de precisão. Longe de ser uma regressão a formas não superadas de arcaísmo, o fascismo é a realização de potencialidades imanentes ao progresso. Longe de ser uma regressão aos confins da barbárie e ao obscurantismo, ele é uma das potencialidades imanentes à própria civilização. Ou seja, ele é a expressão da violência e das contradições produzidas pelo próprio progresso.

 

Nesse sentido, seria interessante pensar porque, em países como o Brasil, o fascismo é um fantasma que tem a força de sempre assombrar. Por que a ele podem se associar “liberais genuínos” que nele veem sempre “o mal menor”?  Algo que poderíamos chamar de “complexo de Vargas Llosa”, a saber, a associação natural de liberais “cosmopolitas” a fascistas, em nome da preservação da marcha do progresso contra os que nada entenderam de sua força.

 

Há assim de se perguntar sobre como países de tradição colonial e violenta explicitam essa potencialidade fascista própria ao progresso. Deveríamos compreender que uma apreensão dialética do progresso exige, entre outras coisas, entender como ele traz em seu seio sua própria degradação terrorista em fascismo. Entender como o desejo de emancipação pode simplesmente produzir o seu contrário, a saber, a mais brutal de todas as servidões.

Pois notemos como a tópica do progresso se dá em países de tradição colonial como o nosso. O progresso é compreendido como um processo de modernização. Só que a compreensão de todo e qualquer conceito político exige uma perspectiva “agonística”. Ou seja, devemos sempre nos perguntar: “Contra quem” os conceitos são mobilizados? Assim, contra quem o progresso e a modernização foram mobilizados no Brasil? Essa pergunta permite o esclarecimento do sentido dos termos e a necessidade de suas consequências reais.

 

No Brasil e em toda a América Latina, “progresso” sempre foi a arma apontada contra aqueles e aquelas que representavam o “arcaísmo”, a não inserção no mundo produtivo do trabalho capitalista e na sua lógica primário-exportadora. “Modernização” foi sempre levantada contra o que nos afundariam em uma pretensa letargia, em um pretenso desfibramento e ausência de ordem. Como se diz desde que esse país foi “descoberto”: “terra sem fé, sem lei e sem rei”. A modernização sempre apareceu como a justificativa de imposição da ordem colonial, como o chamado a não chorar pelas ruínas do que essa ordem destruía, até porque ela vinha para “civilizar”, para “educar”, para “salvar”.

 

Não é difícil perceber a matriz violenta desse processo. Principalmente, não é difícil perceber a violência simbólica, essa mesma violência que é ainda mais brutal e duradoura que a violência física. O progresso deveria ser feito sem forma alguma de identificação com o que o próprio progresso destrói. Um pouco como essa publicidade sobre a rodovia Transamazônica que podíamos ler em revistas de circulação nacional na época da ditadura militar e que anunciava: “Estamos vencendo o inferno verde”. Pois era isso a natureza que resistia ao “progresso”, a saber, um “inferno verde”, algo a ser esconjurado, expulso, subjugado e vencido. E todos os que a ela estivessem associados por serem “mais próximos da natureza”, “menos desenvolvidos” deveriam sofrer o mesmo destino: ou se deixar transformar ou ser destruído.

 

Não é estranho que esse progresso preparasse o fascismo. Pois ele exigia a mais profunda indiferença e ausência de solidariedade em relação aos que não viam progresso algum na marcha gloriosa do progresso nacional. Ele exigia o apagamento e o desaparecimento de tudo o que a ele não se submetesse.

 

É claro esse progresso tem um preço, mas o preço precisa ser baixo para quem dele se beneficia. Para coloca-lo em marcha seria necessário que o estado brasileiro fosse um estado protetor para os beneficiários da modernização e um estado predador para aqueles e aquelas que seriam espoliados em nome dessa mesma modernização. Uma modernização dessas se faz subjugando violentamente, apagando genocídios. Se o Brasil mostra assim como o progresso se realiza como barbárie não é porque temos alguma forma de deficiência histórica. É porque, inseridos na lógica de produção capitalista, explicitamos aquilo que é a condição para o progresso europeu. Condição essa que “em condições normais” pode ser deslocada para longe dos olhos azuis, para essas terras das quais não se tem muita informação, nas quais não se sabe bem o que acontece, ou até se sabe, mas são países “de inserção deficiente”. Países nos quais os princípios racionais da modernização social ocidental “não puderam se aplicados de forma conveniente”.

Na verdade, essa “inconveniência” é completamente conveniente e necessária. Sem ela, não seria possível “progresso” em lugar algum. E se vez por outra esse mesmo fascismo volta a Europa, é porque tal lógica tende a se generalizar. Pois ela sempre foi uma das figuras do progresso.

No vídeo abaixo, Vladimir Safatle explica que o termo “fascista” foi usado várias vezes para descrever formas de discurso e posições políticas. Mas infelizmente o termo não foi discutido naquilo que ele realmente significa. Como identificar claramente um discurso fascista, uma forma fascista de vida?

 

Vladimir Safatle é filósofo, professor livre docente da USP, autor de Só mais um esforço (Três Estrelas, 2017), “O circuito dos afetos: Corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo” (Cosac Naify, 2015), “A esquerda que não teme dizer o seu nome” (Três estrelas, 2012), entre outros
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