Dossiê | Pulsão de morte

Dossiê | Pulsão de morte
“Mulher branca com muita dor”, de Pinky Wainer (Reprodução/Estúdio 321)
  Existirmos: a que será que se destina? A pergunta que estrutura a tão bela “Cajuína”, de Caetano Veloso, tem como inspiração o impacto causado pelo suicídio de Torquato Neto e a doçura resignada na tristeza de seu pai. A vida, como um copo de cajuína, é apenas matéria fina e a tal lágrima nordestina parece não se turvar, pois reconhece que, afinal, nosso destino é sempre a morte.  Há exatos 100 anos Freud deparou-se com semelhante constatação, reunida em seu magistral Além do princípio do prazer (1920). O texto não é propriamente mais uma contribuição teórica e clínica ao então já consolidado edifício psicanalítico: talvez ele possa ser mais fielmente metaforizado como a implosão de alguns dos pilares mais profundos da psicanálise e a instauração de uma racionalidade inédita, condensada na ideia da pulsão de morte. Mas é preciso retroceder um tanto para compreender a extensão dessa verdadeira revolução do pensamento freudiano e seus impactos na compreensão psicanalítica do sujeito.  É conhecida a radicalidade com que Freud defendeu, desde o início de seu projeto intelectual, a sexualidade como centro de toda análise possível do humano. Somos seres que buscam, incansavelmente, satisfação. Mesmo junto àquelas manifestações que parecem mais alheias ao prazer (sonhos, atos falhos, sintomas neuróticos, masoquismos), Freud, de forma hábil, encontrava como horizonte do desejo inconsciente um núcleo recalcado de verdade sexual. O conflito entre tal princípio do prazer e o princípio de realidade, que govern

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